ZEUS, VAMOS PASSEAR?


 O Zeus entrou na vida da nossa família no Natal de 2006, quando ao procurar um cachorro para o presente de Natal daquele ano a nossos filhos, o encontramos em uma vitrine, lindo e formoso, aqueles olhinhos a nos fitar do outro lado do vidro, como quem queria dizer: quero ir com vocês...



Era o ultimo daquela ninhagem, um Gold Retriver lindo, e foi amor a primeira vista, tanto que fechamos a compra enquanto o vendedor insistia em explicar sua ótima linhagem e retrospecto de seus pais e a certificação do canil e tudo mais. Importante, mas nem ouvíamos ele dizer mais nada, pois nos apaixonamos por ele.
 
Isto foi inexplicável, e somente anos mais tarde, viríamos a descobrir a sua importância para todos lá em casa. Sua história foi linda, e agora aqui, resumidamente passo a contar.
A partir daí, o Zeus foi se tornando cada vez mais uma membro da nossa família, onde seu crescimento coincidia também com o crescimento de nossos filhos, que com o passar dos anos, universidade chegando, e sem que nos déssemos conta, voaram em busca de seus sonhos, deixando um vazio em nossa casa, que só não foi maior, pela presença do Zeus, que aquela altura, já era um cachorro formado, e soube como ninguém ocupar aquele espaço deixado por nossos filhos de forma que muito nos ajudou nesta fase maravilhosa, mas dolorida do conhecido “ninho vazio” que é a saída dos filhos de casa.

Os anos foram passando, e nosso amor por ele somente aumentava, e acho que a recíproca também foi verdadeira.
Aos finais de semana, com a volta dos filhos, a festa era completa, e nunca mais seríamos a mesma família, pois o Zeus sempre estava no meio das conversas, no café da manha do sábado, onde todos colocavam as novidades em dia. Por debaixo da mesa, o Zeus ouvia tudo e somente se manifestava geralmente com a chegada do queiro a mesa, coisa que ele adorava.

É engraçado como um cão consegue ler o que esta acontecendo ao seu redor, sabe fazer o diagnostico quase perfeito de uma situação mais difícil ou mais alegre, sabe quando você se prepara para uma viagem, mesmo que não tenha ainda nem iniciado a preparação das malas.
E o Zeus refletia este superpoderes na maioria das vezes, com alegria, tentando nos dizer que ele já sabe do ocorrido ou do que vai ocorrer, ou do que estamos passando, ou da viagem que se aproxima, que embora saiba que ele vai fizer sozinho uns dias, mas no retorno, lá estará em frente ao portão esperando com aquele sorriso lindo e o rabo abanando.

 
 
As vezes, o Zeus, geralmente antes de uma viagem nossa, se isolava do mundo, literalmente ignorava a todos, e em seu cantinho, levantava apenas o olhar para confirmar o que já sabia: Final de semana ia fica sozinho, e seu mal humor, ninguém o fazia mudar, por mais que tentássemos.
 



Cachorros adoram passear, adoram cheirar, adoram o ar livre. O Zeus também adorava tudo isto.
No auge da sua vitalidade, de sua beleza, de sua postura, deixou vários herdeiros em nossa cidade, com ninhadas lindas, que vieram a alegrar tantos outros lares, tantas outras pessoas que puderam adotar seus filhotes e com isto, espalhou alegria a outras famílias também.
 
No momento mais difícil desta caminhada, tivemos que enfrentar um problema mais grave de saúde em nossa casa, e neste caso, o Zeus se tornou o ouvinte mais fiel, não só ouvindo, mas nos momentos de oração, lá estava ele, deitado a nossos pés, como um enviado de Deus.
Obrigado Zeus, por ter transformado mais leve o fardo que passamos naquele ano.
E para ele, podíamos contar tudo, ele ouvia, virava a cabeça, língua de fora, e aquele sorriso que simplesmente transmitia uma paz, um amor e uma certeza de que, não há problema, por mais complicado que seja, que não pode ser resolvido quando se acredita em Deus.

O Zeus nos fazia o tempo todo acreditar que, maior do que todos os problemas, esta o poder de Deus, e se Nele crer, nada será impossível. Obrigado Zeus por nos fazer perceber isto, pois quantas e quantas vezes cheguei em casa com muitos problemas trazidos da empresa, e ao dar uma volta contigo, voltava leve, feliz esquecendo este dia a dia maldito que nos coloca muitas vezes sob pressão tão grande, que nos esquecemos de viver.


 
E tinham as festas!! Ahhhh como ele gostava da casa cheia de gente, cheia de jovens, todos com sonhos e que vinham tantas vezes em nossa casa para, nos poucos momentos de folga da universidade, contar seus sonhos e suas realizações. E la estava ele, metido no meio da bagunça e somente ia dormir quando o ultimo ia embora, muitas vezes de madrugada.

Nossos verões, sempre quentes e abafados, era motivo mais do que de sobra, para estar junto conosco ao redor da piscina, correndo com sua inseparável bolinha entre os dentes, e que a deixava cair dentro da piscina meio sem querer querendo, somente para que pudéssemos pega-la, arremessar para longe, e ele, correndo meio desajeitado, ir busca-la para tudo recomeçar.

Os banhos que tomava, inicialmente em Pet Shops, mas que depois que descobri o quanto é prazeiroso dar banho no seu próprio cachorro, passei a fazer isto em nossa casa e o ritual era sempre o mesmo quando o chamávamos para o banho, ele já sabendo, fazia toda manha possível, até baixar a cabeça e, lentamente, caminhar até perto da torneira, onde se deitava, sempre de barriga pra cima, aguardando pacientemente ser levado e massageado com seu shampoo preferido. Ao termino, aquele chacoalhar todo, que me molhava inteiro, mas era um banho de puro prazer.




Tinha seus cantos preferidos em toda casa, e sabia exatamente qual era o melhor ângulo para se deitar, e ficar observando tudo, sem deixar passar nada que não pudesse estar atento, e de longe, nunca mais vou esquecer aqueles olhinhos pretos redondos, observando se havia algo que lhe interessava.
Sua posição preferida ao deitar-se era com as quatro patas para cima, todo retorcido, encostado nas paredes, dizíamos que ele tinha um caso com aquelas paredes, pois ao perceber que não estava debaixo da mesa conosco, com certeza la estava ele na sua parede preferida, com as patas para cima.


Seu maior medo eram as tempestades, geralmente no verão carregadas de vento, raios e trovões. Ficava apavorado e só se sentia seguro ao nosso lado. Fico imaginando naqueles dias em que estávamos de viagem, e você Zeus, sozinho, enfrentou seus próprios medos e aguentou firme as tempestades passarem. Desculpa por isto Zeus, mas não podíamos adivinhar quando eles chegavam e não estávamos em casa para te acudir.
A noite, aos poucos e com insistência, foi chegando cada vez mais próximo, até que, passou a dormir no mesmo quarto, e as vezes, fedido que estava, tínhamos que abrir janela e tudo para que ele pudesse ficar perto, no seu canto preferido, e uma coisa que me chamou muita atenção nestes anos todos, o Zeus nunca nos acordou a noite, nunca fez um barulho que nos atrapalhou, e jamais vamos esquecer quando o dia amanhecia, aquela esticada de pernas que dava, ainda de barriga pra cima, aquele bocejo longo e rapidamente se levantava, descia as escadas para o início de mais um dia.

Na chegada do trabalho, todos os dias lá estava ele no último degrau da escada a me esperar, tinha que dar uma cheirada no meu rosto, meio que fazendo um diagnóstico do que havia ocorrido de bom e de ruim, virava-se e ia deitar.
 
E tinha a palavra mágica: Vamos Passear?

Ao ouvir isto, não importa se estava frio ou calor, noite ou dia, o Zeus simplesmente enlouquecia a pular de um lado a outro, como quem dizendo assim: Passear? Oba, eu adoro passear, vamos, vamos logo.
Ao sair, eu perguntava: Cadê a coleira Zeus?

E ele, correndo em direção a coleira, geralmente pendurada no para choque do jeep, apontava com o nariz, e sentado, esperava que colocasse em seu pescoço, para rapidamente levantar e fazer força para o portão se abrir.
Uma volta pelo condomínio, onde cheirava tudo, e deixava seu odor em tudo. Costumávamos perguntar a nós mesmos que como é que ele conseguia fazer tanto xixi assim?  E lá íamos nós, caminhando e conversando, enquanto ele ia lá na frente, sempre virando e checando se estávamos por perto. Cheirava tudo e dava inveja a todos aqueles cachorros presos em seus quintais, onde só lhes restavam latir, e ao Zeus, fazer um xixi bem na frente deles que estavam do lado de dentro das grades, como que dizendo assim: Eu estou aqui fora e você ai dentro, então vou deixar minha marca aqui na sua calçada.
Do outro lado da grade, se esguelavam de tanto latir, sem qualquer reação do Zeus cá de fora.



Um dos passeios que mais gostava era dar uma volta de Jeep, que, ao abrir a porta do veículo o Zeus já se posicionava para ser erguido sabendo que hoje o passeio seria especial.
Onde parávamos o Jeep, fila de gente se formava para vê-lo, toca-lo, acaricia-lo. O Zeus era lindo ! Era especialmente carinhoso e feliz !

Em terra, crianças pequenas já vinham com a mãozinha esticada para tocá-lo, com olhares de pavor dos pais com a pergunta sempre igual: Ele morde?
Nunca mordeu ninguém, mesmo com os mais agressivos, mesmo sendo mordido por outros cachorros, nunca revidou, nunca machucou ninguém.
E ele deixava ser tocado sem ao menor reação por todos, adultos ou crianças, e muitas e muitas vezes, retribuía o carinho com uma lambida que significava que era hora de seguir em frente com o passeio.
Porque que os cães não envelhecem na mesma velocidade que seus donos?

Seria tão bom se fosse assim, seria tão bom que pudéssemos viver juntos, envelhecer na mesma velocidade, morrer no mesmo tempo, juntos.
Mas não é assim que as coisas acontecem, não foi assim que Deus desenhou as coisas.

E será que é porque eles são tão amigos e  tão amáveis, que precisam ir embora mais rapidamente?
O tempo foi passando, muito rápido, e aos poucos, também percebemos que para o Zeus o tempo passava mais rápido ainda.

 Seus movimentos, seu folego, aos poucos, dava sinais de que o tempo para ele correu mais rápido que pudemos perceber, e mesmo sem querer ver isso, mesmo fazendo-se de cego, mas a realidade é dura, muito dura, é cruel demais.
Agora, já com seus 11 anos de vida, os sinais da velhice resolveram aparecer todos ao mesmo

tempo. 
Porque tão rápido? Porque não demorou um pouco mais? Porque, meu Deus, não temos uma chavezinha que pudéssemos girar ela, e tudo aquilo que aqui amamos, nunca perder?
 Uma terrível paralisia acometeu seus membros traseiros que o impedia de correr, de andar, de se locomover, obrigando o mesmo a ficar deitado.



Me lembro do seu último banho, após ter feito suas necessidades deitado, mas mesmo sem forças e sem controle de suas pernas traseiras, virou de barriga pra cima com enorme esforço, assim como fez em todos os banhos que lhe dei. Não sabia, mas aquele foi o ultimo banho....

 



Hoje, depois de um longo período em que sua condição apenas piorava, mas ainda assim, demonstrava o mesmo carinho para conosco, ele nos deu o sinal que queria partir.

E hoje ele partiu.......

Deixou aqui dentro de mim uma dor imensa, um buraco grande que não sei quanto tempo vai demorar para ser preenchido.

Zeus, quero que saiba que nunca vou esquecer, nunca o esqueceremos em nossa família,  e que acredito que lá no céu, existe um jardim imenso e lindo, todo florido e com grama bem fresquinha, com muitas arvores e lugares para você fazer xixi e que não tenho dúvida nenhuma que enquanto teclo aqui, com os olhos já cheios de lágrimas de novo, que você está se divertindo neste campo, junto com outros tantos cachorros que foram amados aqui na terra. Não amados como você foi, pois acho que ninguém conseguirá amar um cachorro como nós amamos você.
Meu eterno companheiro Zeus, vai em paz.
 
 


 



E quem sabe um dia, nos encontramos novamente  e se assim acontecer, me dá um sinal que é você para que eu possa te reconhecer.
O meu sinal já fica combinado que será a palavra mágica, que somente você saberá reconhecer: ZEUS, VAMOS PASSEAR?

Blumenau, SC,
outubro de 2017

Comentários

  1. Texto lindo meu amigo! Os cães tem mesmo esse poder de nos cativar pelo seu amor incondicional, pela sua alegria, pela sua fidelidade. Infelizmente vivem pouco, mas esse tempo conosco sempre vale a pena. Agora é seguir em frente e saber que um novo cão deverá vir para acompanhar o seu envelhecimento e o da Celise...
    Grande abraço.
    Joaquim

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