UM AMOR PARA TODA ETERNIDADE




O Brasil em 1950 ainda engatinhava como país, e próximo de Itu, SP, num lugar mágico e lindo chamado Taperinha, que José e Lídia se conheciam e davam início a uma história fantástica que sequer poderiam imaginar o qual especial seria o final.
Meu pai nasceu em 1929, minha mãe em 1933, se conhecerem ainda jovens, se enamoraram, depois casaram-se.


Minha mãe com 22 para 23 anos, e meu pai com 25. Era comum naquela época o casamento mais cedo, geralmente as famílias se formavam entre os vizinhos mais próximos.
Tiveram 3 filhos, eu, minha irmã Nilza e meu irmão caçula, o Claudio.
Iniciaram, como muitos naquela época, sem praticamente nada. Construíram sua casa no sítio do meu nono Luiz, ou Luizico, como era conhecido meu saudoso avô, pai do meu pai.
Casa simples, mas como ficava no alto do relevo do sítio, tinha uma vista privilegiada de toda a região e se podia avistar praticamente todos os outros sítios vizinhos, assim como, boa parte do sitio do meu avô.
A casa, tinha ao todo, 4 cômodos, sendo uma cozinha grande, como era costume naquela época maravilhosa, onde se privilegiava não a sala, mas a cozinha, pois era onde a família passava a maior parte do tempo quando estava em casa e sempre fazíamos as refeições juntos, sentados a grande mesa de madeira.
Num canto, o majestoso fogão a lenha, que como todos daquela época, revestido de cimento com vermelho xadrez, que era um pó que misturado ao cimento dava o acabamento vermelho sangue, característico de todos os fogões à lenha daquela época.
Na sala de jantar, móveis simples, mas de fórmica, um luxo para a época.
Os de lá de casa eram de cor cinza claro e as cadeiras eram estofadas, macias.
Por cima da cristaleira, alguns objetos ganhos ainda no casamento, onde se destacava uma fruteira em vidro, onde minha mãe mantinha sempre alguns enfeites.
Na sala de estar, um sofá vermelho, bonito e vistoso, que raramente era utilizado, pois não havia televisão, então, a sala quase nunca era utilizada.
No quarto da casa, a cama de meus pais, e mais próximo da parede, uma cama de solteiro, onde eu e minha irmã dormíamos, um de cada lado da cabeceira.
No outro canto, um berço onde meu irmão dormia.
O chão, me lembro muito bem, era um piso cerâmico onde minha mãe encerava com cera vermelha chamada Colmeína, e usava um escovão para dar um brilho maravilhoso. Todo sábado ela encerava e dava brilho para receber as visitas do fim de semana, geralmente parentes que vinham nos visitar.
Menos na cozinha, que era da mesma lajota, mas sem usar a cera e mantinha a cor padrão original, marrom.
Nesta mesma cozinha, sobre a pia, o maior orgulho de minha mãe: suas panelas de alumínio que de tão areadas, refletiam o nosso rosto quando olhávamos para cima.
Ela tinha um fogão a gás, um luxo também mas ela só usava para cozinhar no domingo, e ficávamos observando ela ascender o fósforo e a chama azul que surgia no bico do fogão. Coisa linda.
Acima deste, mais ao alto, um pedestal fixado na parede com imagens de alguns santos, que não me lembro mais quais eram, e o rádio a pilha, orgulho do meu pai.
Aquele mesmo, grande, de botões na frente e de onde todo dia, meu pai ouvia a noite a Voz do Brasil e nos finais de semana, ele ouvia os “desafios de cururu”, um tipo de musica que faz tempo não escuto mais.
Vivíamos em uma harmonia muito grande em nossa casa, onde toda noite, antes de dormir, pedíamos a benção a nossos pais, que prontamente respondiam “Deus te abençoe”.
O silêncio á noite no sertão era tamanho, que se podia ouvir o cantar dos grilos, e ao longe, o coachar dos sapos no rio, assim como, a corrida noturna dos cavalos pelos pastos, que meu pai dizia, era montados pelo curupira.
Ao ouvi-los passar correndo em frente de casa, me lembro que morria de medo e me encolhia na cama só de pensar neste tal de curupira.
O sítio localizava-se a mais o menos 20 km do centro de Itu, em uma localidade denominada Taperinha, e era vizinho do sítio dos Candiani e dos Zanonni, e antes do sítio dos Morelli e dos Franchischinelli, todos descendentes a maioria de Italianos e alguns de Espanhóis, que aqui vieram, oriundos do velho continente, na busca de um novo sonho, que acreditavam, ser melhor do que os que tinham na sua terra natal. A busca da nova vida, nova esperança.
Quanta coragem, deixar tudo para traz, e se aventurar em um país distante e desconhecido como o nosso, em uma época de tantas incertezas como aquela.
Eram heróis aqueles imigrantes!
Viviam todos como uma grande família, e no sítio, além de nós, moravam também o nono Luiz e a nona Cecília, além dos colonos que ocupavam diversas casas espalhadas pelo sítio.
Cultivavam as terras em sistema que chamavam “de meia”, ou seja, 50% do que colhiam ficava com o dono da terra e 50% com os colonos que poderiam vender o excedente na cidade, e guardar o resto para consumo da própria família.
Poderiam produzir o que quisessem, e todos viviam em completa harmonia.
Os sítios vizinhos, todos eles eram ocupados por parentes e amigos que cultivavam uma amizade intensa e leal entre si.
Eram todos amigos, do tipo de que, quando um matava um porco, separavam para o vizinho, não a carne com ossos e as piores partes do animal. Naquela época, tinha-se o costume de presentear o vizinho com a melhor parte do porco, como o lombo ou o pernil ou a lingüiça já pronta.
Da mesma forma, meus pais também ao receberem visitas, ou mesmo sem receber, levavam até o sitio vizinho não a sobra da colheita de uva, do milho, do alho, eles sempre ofereciam os melhores cachos das melhores uvas que eram colhidas, a espiga mais viçosa, as maiores cabeças de alho.
E sempre voltavam com alguma coisa em troca, seja queijo, leite, manga e outros.
Era uma questão de respeito, de pura amizade, sem qualquer interesse.
O sítio do nono era um sítio lindíssimo, e meu pai foi um grande empreendedor, sempre com o apoio e ajuda de minha mãe.
Vida difícil, mas ele diversificava muito a produção do sítio, e lá cultivava arroz, alho, cebola, café, tinha cavalos, burros, vacas para leite, porcos, galinha.
Nunca vi meu pai sem dinheiro no bolso !
Mais tarde, lá pelos idos de 1962/1963 ele iniciou um grande empreendimento de criação de frangos para abate, o que não deu certo, pois no auge da criação, os animais foram acometidos de uma peste, que acabou dizimando toda a criação.

Anos depois, com a queda de preços do café que houve na época, ele iniciou a plantação de uva, da espécie Niágara, passando a ser um produtor de grande qualidade, de onde iniciou mais tarde a produção de vinhos caseiros, que era guardado a sete chaves num galpão e que ninguém podia chegar perto nem fazer barulho, pois segundo ele dizia, “o barulho faz azedar o vinho”.

Prá mim, ele dizia isso pra ninguém ir lá beber o vinho dele. E dava certo, pois eu dificilmente entrava no local onde guardava as barricas, e as visitas, quando existiam, dificilmente ele levava a aquele local.
A produção de uva ele vendia para feirantes no mercado municipal de Itu e também,  á beira da Rodovia Castelo Branco, onde ele e minha mãe,  lotavam a caminhonete no domingo de manhã e ficavam o domingo inteiro ás margens da rodovia, e só voltavam para casa, quando todas as caixas haviam sido vendidas.
Tinha clientes cativos, e raramente retornava para casa com sobras.
O sítio era cortado por 2 rios, e em um deles, meu pai instalou um sofisticado sistema de bombeamento de água, que abastecia todas as casas do sítio através de uma bomba movida a pressão d’agua, sem qualquer uso de energia elétrica, a bomba funcionava com a diferença de pressão da água, que vinha rio abaixo, e era chamada  “bomba de martelo”.
Até hoje, ao fechar os olhos, posso escutar o som que aquela bomba fazia bombeando água potável para todos nós dia e noite.
De vez em quando a bomba entupia, pois entravam folhas e pedras no seu interior, ou mesmo rãs e sapos, sendo necessário desentupir e fazê-la voltar a funcionar.
Fomos treinados a fazer isso, e até o som da batida meu pai nos ensinou, e sabíamos exatamente quando ela “pegou” de fato, pois o som era mais agudo e ao ouvi-lo, podíamos ir embora pois a bomba funcionaria por dias e dias seguidos sem parar.
Não era fácil ser agricultor, vida dura, de sol a sol e ao final da colheita, nunca sobrava tanto dinheiro assim, então, todo o ciclo tinha de se iniciar novamente.
Meu pai era um estudioso da terra, e conhecia técnicas de plantação como ninguém. Eu o considero hoje, analisando o que fazia no passado, um inovador para sua época, pois sempre ia em busca de aperfeiçoar suas técnicas de plantação, sempre inovava, sempre buscava a diversificação da produção.
Dizia que tinha de plantar um pouco de tudo, assim, garantiria que não ficaria na mão de um único cliente, e teria mais ofertas para vender.
Plantou de tudo: milho, arroz, feijão, alho, cebola, couve flor, tomate, pimentão, arroz, café, uva, enfim, diversificava conforme o mercado mudava e, com isso, conseguia estar um pouco á frente do mercado, o que lhe dava uma certa vantagem.
Os sítios vizinhos, na maioria deles, trabalhavam com a pecuária de leite, com grandes rebanhos de vacas que dia após dia, eram conduzidas às cocheiras para a ordenha, ainda manual na época, e o leite, vendido na cidade.
Vivíamos uma vida maravilhosa, em harmonia com a natureza, mas se trabalhava muito na roça, e me lembro perfeitamente do esforço, da dedicação e do amor que meus pais tinham pela terra, pela roça, pelos animais e pela beleza do sertão.
Foi uma época muito especial aquela, os cheiros, as cores, as nuances daquela terra nunca saíram de minha memória.
O céu completamente estrelado em noite de céu claro, ou o clarão da lua cheia, a banhar os pastos em noite fria, são imagens que jamais esquecerei, e que me trazem muitas recordações de uma época bem distante, mas que foi vivida e aproveitada na sua melhor plenitude.
Eram os lampejos da infância, daquela infância pobre, mas digna, em que a felicidade se fazia presente em coisas pequenas, menores, mas que era apreciada e curtida em todos os momentos.
Talvez por isso, tenham ficado guardadas para sempre em minhas lembranças alguns fragmentos desta época, que nunca mais vai voltar.
Anos depois, com a morte do meu avô, os irmãos decidiram vender o sitio, e novamente meu pai cuidou de tudo.
Já na cidade, ele investiu na compra de um armazém, que se chamava “Armazém São Paulo de Secos e Molhados”. Viveu dias felizes no empreendimento, comprando em São Paulo, revendendo em Itu.
Fez amizades, clientela fixa.
Marcava tudo numa caderneta, vendia fiado, e nunca deixou de receber pois o respeito que os clientes tinham com ele, era muito grande que os impedia de não paga-lo no final de cada mês.
E minha mãe sempre ali a seu lado, apoiando e ajudando em tudo o que ele fazia.
Mais tarde, com a venda do armazém, já que a chegada dos Super Mercados praticamente dizimou este tipo de comércio, ele comprou uma banca de revistas que me dizia, “era para passar o tempo”.
Novamente o casal sempre junto, até que a idade avançou e resolveram que era hora de parar.
E assim o fizeram, sempre juntos, durante 65 anos, dia a dia.
Um amor diferente do atual, amor de coração, amor verdadeiro.
Hoje, ao receber a notícia do passamento dos dois, levei um susto.
Como assim ,os dois juntos? Indaguei meu irmão que me dava a noticia!
Minha mãe foi primeiro, as 13:30 h, e meu pai, foi atrás as 14:30 h. E isso, no mesmo dia, sem que um tivesse tido noticias do outro.
Coisas inexplicáveis, que acontecem num lampejo de raridade, de sublime amor.
Que coisa mais linda Deus reservou para eles.
Viveram juntos a vida inteira, e isto foi tão forte e intenso, que resolveram subir aos céus também juntos, sem deixar o outro para traz, e sem que um soubesse do outro.
Fato raríssimo que um amigo meu descreveu como “a prova mais clara de que um amor verdadeiro segue para a eternidade”.
 
Meu pai e minha mãe caminharam hoje juntos....como sempre viveram, sem deixar o outro pra traz.

 
Fica a saudade, mas que é compensada pela alegria de ter testemunhado, talvez a maior prova de que Deus prepara tudo para nós, e com certeza, neste instante que estou terminando este texto, ele já os recebeu na morada eterna, onde viverão eternamente juntos, reencontrando aqueles bravos imigrantes que com eles conviveram e que também já partiram....
E como meu pai dizia toda vez que o visitava e me despedia: Deus que te acompanhe !.
Então, agora é minha vez de dizer: muito obrigado meu pai e minha mãe por ter nos dado esta lição de vida, lição de amor, lição de cumplicidade.
 


















E que Deus vos acompanhe por toda eternidade !!


S.Pires
Itu SP, 09 de Janeiro de 2017.
 

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