NUM DOMINGO DE SOL EM LINDAU - ALEMANHA

 

 

Foi no primeiro domingo da primavera do ano santo de dois mil e onze, que estando na cidade de Lindau, Alemanha, que saí para um passeio pela cidade.
A cidade, belíssima !!

O dia estava extremamente claro, sol brilhante, o que para o europeu significa que é hora de abrir as janelas, sair para a rua, aproveitar a maravilha do calor do sol tão raro por estas bandas.

No raiar do dia, já dava para sentir que seria um domingo muito especial. Não apenas pela linda manhã que se fazia presente, mas pelo som de milhares de passarinhos cantando, um frescor gostoso, um raiar de dia maravilhoso.
Na cidadezinha, pequena a beira do magnífico lago, prédios com mais de 1000 anos esperam por cada barco ou navio que atraca em seu pequeno porto e devem ter
testemunhado tantas coisas, tantas historias que se pudessem contar todas elas, não caberia em enciclopédia alguma.

O porto por sinal é o ponto de encontro de todo mundo. No canal de entrada, de um lado, um leão adorna uma das colunas principais que dão acesso ao atracadouro. Do outro, um farol. Ambos construídos em 1362.
Fico a imaginar quantos e quantos barcos não devem ter passado por eles, e estes, ali imóveis, imponentes, abençoando os bem vindos, afastando os maus espíritos.

O leão, imponente, como que um guardião daquela cidadezinha maravilhosa, encravada entre a Alemanha, Suíça e Áustria, num daqueles lugares que se pudéssemos escolher para passar o fim da vida, com certeza o faria.
Na rua, as pessoas chegam de todo lado, para aproveitar o dia que promete ser fantástico.
Bandas de musica, palhaços, pintores expõem sua arte, restaurantes e cafeterias enfeitam suas mesas debaixo de generosos guarda sois a espera daqueles que por ali passam, sentam e tomam um café, um vinho e desfrutam da vista fantástica do grande lago a frente.
Barcos saem do pequeno porto rumo a Áustria carregados de gente, outros chegam vindos da Suíça.

Casais, moços, moças, crianças, bicicletas, muitas bicicletas vão chegando a praça, estacionam e todos andam de um lado a outro.
E foi num destes restaurantes, de frente para o lago, que sentei para tomar um vinho e também apreciar o dia esplendoroso que se fazia. Uma bandinha, daquelas bem tradicionais, tocava bem debaixo da grande torre, um dos marcos da cidade, em um pequeno palco.

E foi neste mesmo restaurante, que presenciei uma cena marcante e emocionante e que retrata, talvez em sua maneira mais singela o que é o amor. Foi assim:
Não os vi chegar, mas quando dirigi o olhar para o casal que sentava duas ou três mesas a minha frente, não tirei mais o olhar e fiquei observando, detalhadamente, o comportamento dos dois.

Com certeza, já passaram dos 80, talvez até mais, embora a troca de carinho entre os dois, os transportava, talvez, para os primeiros anos de namoro em que se conheciam e tudo era novidade. Eram como dois adolescentes, tamanho o carinho.
Ele, um senhor distinto, como não poderia deixar de ser.
Ela, uma senhora lindíssima, daquelas cuja beleza não está só na feição, mas em tudo.

No detalhe de suas unhas bem pintadas, no cabelo arrumado, no brinco, na roupa, na beleza do sorriso lindo. Uma beleza rara.
Percebi a alegria da senhora ouvindo o som da banda tocando, e, ao mesmo tempo, ela cantava também.

Ele, a beijava no rosto, beijava suas mãos, acariciava seus cabelos, e assim ficaram por longo tempo. Dois adolescentes na flor da idade, dois velhinhos de cabelos brancos.
O chá que haviam pedido chegou, junto com um pedaço de torta de maca, especialidade daquela casa suíça.

Devagarinho, ele tomou a mão direita dela, e conduziu suavemente em direção a torta de maca, para que ela pudesse tirar um pedaço. Como não conseguia, ele o fez por ela, levanto suavemente ate sua boca. Ao chegar a boca, ela suavemente pega na mão dele, e saboreia a torta com uma alegria e uma satisfação indescritível, como se estivesse comendo aquela torta pela primeira vez na vida.
E assim ficam, de vez em quando, ele pega a xícara de xá, servida em canecas onde se vê pintada as cores da suiça, e leva até sua boca, fazendo com que ela também saboreio o xá. Vi que ela pela idade, já não enxerga mais..



Sem pedir licença a eles, registrei a cena, uma das mais lindas cenas de toda minha viagem ate aqui.....
Esta cena me fez pensar que nos tornaremos, todos nos, velhinhos daqui a alguns anos.
Eu espero poder estar ainda em muitos lugares maravilhosos com minha querida, e que se um dia, ela ou eu precisarmos que um ou outro dirija a mão em direção a uma torta de maca ou a uma caneca de chá, que possamos estar juntos e sermos parceiros como o são este casal que assisti, aqui em Lindau, numa primavera, na Alemanha.

Escrevo este texto dentro do avião enquanto cruzo o oceano atlântico, indo da Europa para os Estados Unidos da América e são coisas como esta que presenciei, que marcam uma viagem, seja a passeio, seja a trabalho como e o caso da minha.
Compartilho este momento com vocês, meus amigos:

Um lindo domingo, abrace sua querida, e fique com ela, ate o fim dos tempos, pois um dia, você e ela, estarão ajudando um ao outro a tomar um chá e comer um pedaço de torta de maçã, como presenciei este casal que me inspirou neste texto.
 
S.Pires
Maio de 2011,
A bordo de um 777.

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