A FANTASTICA HISTORIA DO JEEP EM NOSSA FAMILIA

Meu querido filho Arthur,

Nos idos de 1950, o seu avô José e sua avó Lídia, iniciavam suas vidas e construíram sua casa no sítio do seu bisavô Luis, que localizava-se a aproximadamente uns 20 km do centro de Itu, em uma localidade denominada Taperinha, que ficava depois do sítio dos Candiani e antes do sítio dos Morelli.
Viviam todos como uma grande família, e no sítio, além do seus avós, moravam também seu bisavô Luis Rodrigues e sua bisavó Cecília, além dos colonos que ocupavam diversas casas espalhadas pelo sítio e cultivavam as terras em sistema “de meia”, ou seja, 50% do que colhiam ficava com o dono da terra e 50% com os colonos.

Os sítios vizinhos, todos eles eram ocupados por parentes e amigos que cultivavam uma amizade intensa e leal entre si.
Eram da família Candiani, Cristofoletti, Morelli, Vaz, Zanoni, Braganholo, Franchischinelli , entre outros que não me lembro mais. Todos Italianos, gente boa, gente feliz, gente honesta.
Foi assim que seu avô (Pires) conheceu a sua avó (Candiani) e se casaram.
Eram todos amigos, do tipo de que, quando um matava um porco, separava para o vizinho, não os ossos e as sobras das carnes, mas tinha-se o costume de presentear o vizinho com o melhor do porco, como o lombo ou o pernil.
Da mesma forma, seus avós ao receberem visitas, ou mesmo sem receber, levavam até o sitio vizinho não a sobra da colheita de uva, mas os melhores cachos das melhores uvas que eram colhidas. E sempre voltavam com alguma coisa, seja queijo, leite, manga e outros.
Era uma questão de respeito, de pura amizade sem qualquer interesse.
O sítio do seu avô era um sítio lindíssimo, e seu avô era um grande empreendedor.
Vida difícil, mas ele diversificava muito a produção do sítio, e lá cultivava arroz, alho, cebola, café, tinha cavalos, burros, vacas para leite, porcos, galinha. Nunca vi seu avô sem dinheiro, tinha pouco, mas sempre tinha.
Mais tarde, lá pelos idos de 1962/1963 ele iniciou um grande empreendimento de criação de frangos para abate, o que não deu certo, mas eu ainda me lembro dos enormes galpões que foram utilizados para a criação e onde brincávamos quando criança. Chamávamos os galpões de “ranchão”.
Tinha também o “ranchinho”, que era menor e era onde ele guardava os vinhos que fazia e que ninguém podia chegar perto nem fazer barulho, pois segundo ele dizia, “azedava o vinho”. Prá mim, ele dizia isso prá ninguém ir lá beber o vinho dele
E tinha também a “tuia”, que é onde ele guardava o arroz, o café e o milho que colhia e ficava guardado até os preços subirem para então vender no mercado em Itu.
Anos depois, com a queda de preços do café que houve na época, ele iniciou a plantação de uva, da espécie Niágara, passando a ser um produtor de grande qualidade e chegou inclusive a fazer um pouco de vinho, somente para o gasto da família.
A produção de uva ele vendia para feirantes no mercado municipal de Itu e também, ele vendia á beira da Rodovia Castelo Branco, onde ele lotava a caminhonete no domingo de manhã e ficava o domingo inteiro com sua avó e só voltava para casa, quando todas as caixas haviam sido vendidas.
O sítio era cortado por 2 rios, e em um deles, seu avô instalou um sofisticado sistema de bombeamento de água, que abastecia todas as casas do sítio através de uma bomba movida a pressão d’agua, sem qualquer uso de energia elétrica, a bomba chamava-se “bomba de martelo”.
Até hoje, ao fechar os olhos, posso escutar o som que aquela bomba fazia noite e dia, com um som de batida contínua e com isso, bombeando água potável para todos nós.
Naquela época, ter um carro era um enorme diferencial e eu me lembro como se fosse hoje, do Jeep que seu avô possuía, sendo que aquele era o primeiro veículo que nossa família teve e foi aquele o primeiro veículo que eu andei na vida.
O Jeep era Willys, acho que ano 1965 ou 1966, não tenho certeza disso. A cor era marrom claro e nunca vou me esquecer do barulho dos pneus que ele fazia quando vínhamos para a cidade aos sábados fazer compras e eu viajava no banco da frente, com a cabeça para fora, e ficava olhando a roda da frente girar e ouvindo aquele zumbindo que o pneu original do Jeep faz ao andar no asfalto.
Nunca irei me esquecer também da minha primeira grande viagem da vida, em um passeio que fizemos com o Jeep até Pirapora do Bom Jesus, e naquele dia, sua bisavó Cecília estava junto e eu me sentei com ela no banco de trás do Jeep.
Foi um dos únicos passeios que eu me lembro que fizemos assim mais longe, e me lembro como se fosse hoje dos preparativos que fizemos, como preparar o almoço: frango, farofa, pão, doces, e comemos tudo aquilo ás sombras de enormes bambuzais que se situavam ás margens da Rodovia dos Romeiros que liga Pirapora a Itu.
Em me esforçando um pouco, posso lhe garantir que sinto o cheiro daquela comida maravilhosa que sua bisavó fez.
Nunca vou me esquecer também de uma façanha do Jeep e do seu avô.
Foi no casamento de minha Tia Tica, irmã de sua avó. O casamento foi um acontecimento na capela que ficava no sítio do seu bisavô Mingo Candiani. Todos foram ao casamento e acho que deveriam ter ido umas 200 pessoas, a maioria vinda da cidade, com carros menores e alguns caminhões.
Chovia, mas chovia como nunca eu tinha visto antes. Já era tarde, acho que umas 7 ou 8 horas da noite quando a cerimônia terminou e todos se preparavam para a grande festa, como era de costume de todos que casavam naquela época.
Para chegar ao local da festa, tinha de atravessar um pequeno riacho, e á medida em que chovia mais e mais, a água do riacho subiu, fazendo com que praticamente ninguém conseguisse atravessar.
E aí, chegamos nós com nosso Jeep.
Seu avô chegou, parou á beira do rio e calmamente engatou o 4 x 4.
Toda aquela multidão ali parada, tomando chuva e molhados como uns pintos, e nós dentro do Jeep, só esperando meu pai terminar de girar as borboletas da roda, engatando de vez a roda livre.
Depois, calmamente ele engatou uma primeira e tocou o pé.
Passou sem problema algum, e todos aplaudiram a façanha, foi maravilhoso filho.
O seu avô nos levou para a casa onde seria realizada a festa e voltou, sabe para que? Para buscar os noivos que estavam do outro lado do rio sem poder passar. Sim, o noivo e a noiva chegaram para o local da festa dentro do nosso Jeep!!!
Depois disso seu avô se dispôs a ajudar todo mundo a atravessar o rio e lá ficou por mais de 2 horas, indo e voltando pelo riacho adentro, passando todo mundo e o Jeep dele chegou até a rebocar um caminhão, que ficou atolado ao tentar atravessar o rio e, o Jeep, forte e valente, arrastou todo mundo.
Se quiser conferir esta história, pode perguntar a minha tia Tica que ela vai confirmar a você assim como o seu tio Darcy e o tio Orlando que devem se lembrar desta passagem maravilhosa de nossa infância.
Não sei o porquê seu avô o vendeu, mas o Jeep foi nosso primeiro carro, motivo de orgulho, motivo agora de grande saudade.
Filho, ao te dar este Jeep, estou resgatando um pouco da história da nossa família e um pouco daquilo que vivi no passado, um passado maravilhoso, cheio de conquistas, cheio de trabalho, cheio de alegrias, cheio de saudades.
Que este Jeep possa ficar contigo por toda a vida e que possa trazer a você num futuro distante, as mesmas lembranças que me trazem agora, ao relembrar minha infância lá pelos idos de 1966/1967, naquele sítio que vivi parte de minha vida.
Foi comprado de coração, foi restaurado de coração e é dado a você de coração, se puder, fique com ele para sempre, se não puder, eu vou entender.
Ao entrar dentro dele, é como se eu estivesse entrando naquele Jeep do seu avô Zé, aquele valente Jeep que me fez recordar de tudo isso agora.
Felicidades com ele meu filho, cuidado e juízo, e que Deus te proteja.
Papai, primavera de 2008, em Blumenau SC.

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