100 ANOS DA MIGRAÇÃO JAPONESA AO BRASIL



Agora em Junho, comemora-se 100 anos desde a chegada do KASATU MARU, primeiro navio japonês que atracou no porto de Santos SP, trazendo as primeiras famílias japonesas para o Brasil.
Difícil imaginar o que passaria pela cabeça de cada um dos passageiros do Kasatu Maru, durante os intermináveis 52 dias de viagem entre o longíncuo Japão e o Novo Brasil.
Atraídos pela promessa de ganho fácil nas lavouras de café, onde anos antes imperava a escravatura, esses heróis japoneses deixaram tudo para trás. Sua pátria, família, tradições para se aventurarem em uma terra completamente desconhecida.
Na chegada ás fazendas de café, logo viram que foram enganados e que a promessa de riqueza seria a primeira decepção que encontraram na terra prometida.
Me lembro muito bem, lá pelos idos de 1970, quando aquele casal de japoneses arrendou as terras vizinhas ao sítio de meu pai.
Era um lindo casal, ele se chamava Mamoru Takaki e ela Kimico Takaki.
Recén casados e com uma disposição em vencer na vida que nunca tinha visto antes.
O sítio era um pedaço de terra abandonado e que nunca produzira nada e que antes, era habitado por um ancião que se chamava Batista.
Tinha um casebre feito de taipa e nada mais.
Ele não falava uma palavra em Português, ela já falava até que bem, o problema é que não falava muito.
Tinham uma amizade e um respeito por meu pai que era algo maravilhoso de se ver.
Os 2 ficavam ás vezes horas e horas trocando pouquíssimas palavras um com outro, mas nunca faltou respeito entre os dois.
De vez em quando, eu ia visitá-los e já dava para perceber que eles tinham uma tecnologia mais avançada do que em nossa.
Um exemplo que me lembro, foi que, embora a casa deles fosse toda de madeira, ele desenvolveu uma rede distribuição de gás que ia desde a cozinha até os quartos e com isso, ele tinha luz em todos os ambientes ao mesmo tempo, coisa que lá em casa não tínhamos, pois meu pai tinha só um lampião á gás que era levado de um cômodo a outro durante a noite, não permitindo luz em todos os cômodos.
Este detalhe me marcou muito e me lembro muito bem disso, além das técnicas de cultivo que eram compartilhadas com meu pai e vice versa.
Eram grandes amigos, tinham um respeito mutuo.
Quando o Mamoru contou que iriam iniciar o trabalho no sítio com uma plantação de rosas, todos os vizinhos acharam que ele era louco. Afinal, naquelas terras, plantar rosas?
Bem os meses se passaram, e de sol a sol, de domingo a domingo, eles trabalhavam.
A qualquer hora do dia que você fosse na casa deles, eles estavam trabalhando a terra e foram transformando aquele pedaço de chão em algo novo, devagarzinho as roseiras foram crescendo, brotando e aos poucos, maravilhosos botões de rosas de todas as cores eram cortados, embalados e encaixotados para serem vendidos no mercado municipal e até enviados a S.Paulo no CEASA.
Logo depois, arrendaram mais terras e iniciaram a plantação de tomates.
Foi nesta plantação que eu tive meu primeiro e verdadeiro emprego.
Eu deveria ter uns 8 anos e eles precisavam de gente para montar as caixas de madeira que iriam ser usadas para embalar os tomates colhidos.
Fui e me lembro muito bem quando ao final da semana, recebi meu primeiro salário da vida, fruto de muitas marteladas (algumas no dedão), que dei montando caixas de madeira para tomates.
Eles cresceram, adquiriram terras, depois adquiriram lotes na cidade de Itu, construíram uma bela casa, vieram os filhos que foram estudar em boas universidades.
Ele então, de tempos em tempos, voltava ao Japão para visitar os parentes e sempre voltava com histórias e alguma lembrança para o meu pai.
Não sei onde andam, não sei o destino deles, mas o que ficou em minha lembrança foi a vontade, a honestidade e a amizade que eles tinham para conosco.
Chegaram com uma mão na frente e outra atrás, trabalharam e construíram uma vida, fruto do suor e o trabalho de suas mãos.
Por isso eu admiro o povo japonês.
São determinados e tem um relacionamento fechado no início, mas quando fazem amizades, o fazem por toda a vida.

Navio Kasato Maru


 
 
S.Pires
Blumenau-SC


 
 
 
 

 
 

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